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Vozes de ouro

Os avisos à navegação e os boletins meteorológicos difundidos para alto mar já não têm conta. Informações imprescendíveis para quem anda à pesca, a ganhar o seu dia-a-dia. É meio século de comunicações numa estação onde os radiotelefonistas mais antigos guardam memórias inesquecíveis e os mais recentes vivem com satisfação a sua profissão.

Os tempos são outros. Mas o Posto Costeiro de Rádio Matosinhos-Pesca ainda mantém a sua actividade. E está de parabéns. As bodas de ouro são este ano a prenda de Natal especial para aquela estação, instalada na Docapesca — Portos e Lotas, S.A.
Continua a ser um dos elos de ligação entre a terra e o mar. Precioso para os pescadores que diariamente saem para a faina. Através das várias comunicações, tomam conhecimento do estado do tempo e do mar e de outras informações indispensáveis à sua navegabilidade. Noutras épocas, funcionava também como uma espécie de posto do correio, onde os familiares dos pescadores iam saber notícias. Assim ficavam a conhecer, por exemplo, a sua hora de chegada, se a pesca estava a correr bem ou se as condições climatéricas os tinham afectado. Uma forma também de certas mulheres saberem quando poderiam levar o seu baú de chapa com comida até à praia, pois eram muitos os homens do mar que, em dias de chuva e de frio, não iam a casa e que, por vezes, estavam já há 24 horas sem comer.
Inaugurado a 22 de Dezembro de 1952, o Posto Costeiro de Rádio Matosinhos-Pesca tem sido, dessa forma, e ao longo dos anos, um ponto de referência para os pescadores. A estação foi das primeiras a surgir no País, logo a seguir à de Olhão e à de Portimão. Ao mesmo tempo, apareciam outros espaços semelhantes, em Aveiro, Figueira da Foz, Peniche, Setúbal, Lagos e Vila Real de Santo António. Actualmente, alguns já se encontram fora de serviço.
O posto matosinhense começou por ser na Avenida Serpa Pinto, num edifício que era da Mútua dos Armadores da Pesca da Sardinha. Depois, após o 25 de Abril de 1974, foi instalado na Lota de Matosinhos e, por fim, na Docapesca. O objectivo da sua criação visava a recepção e a transmissão de comunicações de apoio à pesca, de boletins meteorológicos e avisos aos navegantes, com vista à salvaguarda da vida humana no mar em colaboração com as autoridades marítimas. E a troca de informações decorre através do Canal 16 (VHF — de socorro) e 2182 (FM).

Estação de apoio à pesca

Dos largos anos de existência do posto, ficam memórias de horas de satisfação e também de muita aflição. Quem as viveu, sabe contar, como ninguém, esses momentos únicos, agora recordados com bastante saudade, pelas diversas situações ocorridas e pela amizade conquistada. António José da Silva Almeida, de 70 anos, aposentado há cinco, entrou para o posto na altura da sua fundação. E acompanhado de mais dois colegas: Manuel Peixe e Rogério Peixoto. “Tinha 20 anos e andava à procura de emprego. Surgiu a oportunidade e aproveitei. Comecei como radiotelefonista. Depois, paralelamente, exerci outras funções: encarregado de posto, chefe de posto e também chefe da zona norte dos postos costeiros de rádio. Fui ainda coordenador a nível nacional”, conta António Almeida. Foram 45 anos de trabalho e de dedicação que valeram àquele profissional a Medalha Naval Vasco da Gama, atribuída, em 1998, pela Marinha Portuguesa. “Foi o reconhecimento do trabalho de colaboração com as autoridades marítimas e de salvaguarda da vida humana no mar. Fui o único radiotelefonista galardoado a nível nacional”, revela, com orgulho.
Sobre as razões que levaram ao aparecimento da estação, António Almeida refere: “O Grémio dos Armadores da Pesca da Sardinha decidiu criar o posto de rádio para apoio à pesca. Penso que não teve nada a ver com a tempestade que houve em Dezembro de 1947. Além disso, nessa época, os barcos ainda não estavam equipados com radiotelefone. Só mais tarde foram obrigados, a partir de determinada tonelagem, a instalar equipamento de radiotelefonia”.
António Almeida recorda ainda algumas das exigências do seu trabalho. “Trabalhávamos por turnos. Inicialmente, oito horas consecutivas por dia. Mais tarde, a partir de 1965, passámos a trabalhar seis horas diárias”. E explica o funcionamento: “As estações da Marinha e as das capitanias davam as previsões do tempo e os avisos aos navegantes em horários fixos de transmissão. Captávamos as mensagens e divulgávamos-las. De três em três horas, transmitíamos os boletins meteorológicos e, de hora em hora, os avisos de mau tempo”, explica.

Horas de aflição

Sempre atento à frequência obrigatória de socorro e a outras que escolhia para estar de serviço, mantinha-se em alerta constante. A profissão assim o exigia e dela dependiam muitas vidas humanas que se encontravam a trabalhar em alto mar. “Escutávamos também as comunicações entre barcos. Por vezes, certas coisas, fazíamos de conta que não ouvíamos. As transmissões deviam ser só de pesca e de navegação e alguns pescadores estendiam-se…”, diz o radiotelefonista, acrescentando que “nem era permitido dizer boa tarde ou boa noite, somente o necessário”.
Das mensagens que recebia, algumas deixavam-no cheio de satisfação. Até porque sabia o quanto custava andar no mar. “Vibrávamos quando os mestres de pesca diziam que os barcos vinham cheios de peixe. Ficávamos muito satisfeitos”, afirma.
Recebiam igualmente informações relativas à hora da chegada dos barcos a Leixões e à quantidade de cabazes de sardinha ou de caixas de outras espécies que traziam. “Os mestres diziam-nos também quando precisavam que um técnico qualquer estivesse em terra à espera da embarcação. De imediato, avisávamos a respectiva empresa para tratar da situação”, relata.
Mas nem só boas notícias chegavam — e chegam — a terra. Os sinais de alerta para um possível naufrágio são momentos marcantes. “São horas tremendas, de grande aflição, em que tratamos logo de avisar as autoridades marítimas. Alguns dos episódios ficam na memória para sempre. António Almeida recorda o naufrágio da traineira “Padre Cruz”, ao largo de Esposende. “Foi abalroada pelo navio alemão ‘Apolo’ e morreram perto de 30 pescadores. Foi uma noite tremenda”, conta. Outra das lembranças tristes diz respeito ao sucedido com a traineira “Selene”. “Foi metida no fundo do mar, a oeste de Leixões, por arrastões espanhóis”, diz, sublinhando que “devido à atenção e acção dos radiotelefonistas evitaram-se, mesmo assim, muitos acidentes”.

“O avanço da tecnologia é assustador”

Trovoadas violentas e outras situações de mau tempo no mar eram também vividas em terra por quem estava à escuta. “De certa forma, ao falarmos com os pescadores, ajudávamos a atenuar um pouco o medo sentido naquelas alturas. Dávamos-lhes um certo apoio”, refere.
Histórias que marcaram dias de trabalho e que permanecem bem vivas nos vários relatos dos radiotelefonistas. Mas os bons momentos entre colegas de profissão de diversas zonas do País também são recordados: “Conhecemo-nos mais a seguir ao 25 de Abril de 1974. Houve mais liberdade. Às vezes, por telefone, contávamos as peripécias e tristezas de cada um”, diz António Almeida, ao mesmo tempo que salienta o facto de, inicialmente, ganhar 800 escudos por mês.
Hoje, sempre que há oportunidade, não dispensa uma visita a alguns postos ainda operativos. “Por vezes, vou a Aveiro e à Figueira da Foz. Já não encontro os amigos de longa data, mas fico a saber algo sobre eles”, adianta. O desaparecimento dos postos costeiros de rádio, registado ao longo dos anos, provoca alguma tristeza ao radiotelefonista: “O avanço da tecnologia é assustador. Alguns barcos têm telex a bordo e certos pescadores, que sabem inglês, conseguem obter determinadas informações com antecedência”.
Entre uma visita ao posto de Matosinhos, onde ainda dá uma ajuda a quem quer fazer exame de radiotelefonista, e uma outra ao “Aurora da Liberdade”, onde é assessor da presidência, António Almeida vai ocupando os seus dias, transmitindo também ensinamentos e lembrando, com saudade, os tempos no activo. E mesmo quando dá uma escapadela até à sua casinha, na Serra de Lordelo, em Vale de Cambra, não esquece o universo das comunicações e da pesca.

Posto poderá ser integrado noutros serviços

Actualmente com dois trabalhadores, o Posto Costeiro de Rádio Matosinhos-Pesca parece ainda estar para ficar. Quem o afirma é Ana Paula Queiroga, directora da delegação de Matosinhos da Docapesca.
“Por enquanto, vai permanecer. Poderá, eventualmente, vir a ser integrado em serviços administrativos, onde uma funcionária, em paralelo com outras tarefas, estará atenta ao posto de rádio. Hoje não se compadece ter ali dois funcionários, para além da despesa do posto…”, refere. Uma situação que já se verifica noutras zonas do País onde existiam postos costeiros de rádio.
Ainda de acordo com a responsável, o surgimento dos telemóveis desvalorizou um pouco o papel da estação. “A par da função informativa, o posto tinha também uma componente social, pois funcionava como uma espécie de intermediário entre o pessoal que estava no mar e a família. Por exemplo, quando tinham um filho doente, procuravam saber como estava. Agora com os telemóveis é muito mais fácil”, diz, acrescentando ainda que “assim que os pescadores se habituarem a obter outro tipo de informações via telemóvel, vão substituindo o posto”.
A importância da estação tem vindo a decrescer fruto também, de acordo com Ana Paula Queiroga, do desvanecimento da actividade piscatória nos últimos anos. “É uma situação que se regista por força da escassez das espécies e da própria regulamentação comunitária, que limita a pesca. Antigamente, o número de embarcações era bastante superior, havia abundância de peixe e a tecnologia era recuada. Logo, o posto exercia um papel fundamental”, afirma.
Hoje, em média, dão entrada diariamente 15 arrastões e 35 embarcações cercadoras. Por semana, mais 80 embarcações artesanais. “Noutros tempos, verificava-se o dobro das embarcações, refere Ana Paula Queiroga, sublinhando que “a comunicação diária dos arrastões, por exemplo, é uma forma também de gerir os recursos necessários para efectuar a descarga e a movimentação do pescado em lota”.

Única mulher radiotelefonista na estação

Ouvir uma voz feminina do outro lado da linha já não é novidade para os pescadores de Matosinhos. No Posto Costeiro de Rádio há 11 anos, Teresa Castelo já é conhecida pelos homens do mar.
Foi a última funcionária efectiva a entrar para a função de radiotelefonista e a única mulher, desde sempre, no posto de Matosinhos. “Estou na Docapesca desde 1974. Trabalhei na cantina, mas tinha jeito para telefonista. Surgiu a oportunidade e aceitei. E gosto bastante”, afirma.
Com 46 anos, a funcionária mantém-se em alerta no seu posto e pronta a servir quem está do outro lado da linha. “Já chegaram a vir até ao posto para conhecer-me”, refere a radiotelefonista, frisando que é uma profissão que adora, pois permite-lhe comunicar com outras pessoas. E nas chamadas gerais com aviso à navegação e boletins meteorológicos lá está a voz de Teresa Castelo a fazer-se ouvir ao longo da costa.




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